Saturday, 06 June 2026 20:52

RallySpirit 2026: Blomqvist, Grist e três dias de forte emoção no Norte

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RallySpirit voltou a fazer da história dos ralis uma emoção viva

Com Stig Blomqvist e Nicky Grist entre os grandes protagonistas, o RallySpirit 2026 voltou a juntar máquinas lendárias, forte participação internacional e milhares de espectadores ao longo de três dias. O ambiente vivido em todo o percurso, marcado pela paixão pelos ralis e por uma rara proximidade entre público e equipas, confirmou o crescimento sustentado do evento e reforçou a ambição para 2027.

O RallySpirit 2026 terminou este sábado, encerrando a sua 11.ª edição com a confirmação plena de um percurso de afirmação que faz do evento uma celebração muito própria da história e da cultura dos ralis.

Mais do que uma prova, o RallySpirit voltou a assumir-se como uma experiência emocional, construída sobre a memória, a paixão e a capacidade única de aproximar diferentes gerações em torno de carros, sons, protagonistas e imagens que continuam a ocupar um lugar especial no imaginário dos adeptos.

Promovido pela XRacing e organizado pelo Clube Automóvel de Santo Tirso, o evento reafirmou um dos traços mais distintivos da sua identidade: a capacidade de proporcionar ao público uma verdadeira viagem no tempo, evocando os ralis de outros tempos e, ao mesmo tempo, a herança viva de diferentes épocas da modalidade. Essa ligação afetiva, profundamente enraizada na cultura do desporto automóvel, continua a ser uma das razões centrais da força e da singularidade do RallySpirit.

Ao longo de três dias, o Norte do país voltou a ser palco de uma celebração intensa, vivida num ambiente particularmente caloroso, espontâneo e cativante. Essa atmosfera de grande proximidade entre público, equipas e convidados ajudou a tornar a edição de 2026 especialmente marcante e reforçou um modelo de evento onde a emoção se vive tanto na estrada como fora dela.

Blomqvist e Grist trouxeram emoção, memória e história viva

A presença de Stig Blomqvist e Nicky Grist conferiu a esta edição um brilho ainda mais especial.

Campeão do Mundo de Ralis em 1984, Blomqvist foi uma das grandes figuras do RallySpirit 2026, ao volante do mítico Ford RS200 S, arrastando multidões por onde passou e reforçando de forma clara a ligação do evento às grandes referências da modalidade.

Já Nicky Grist, um dos navegadores mais conhecidos da história do Campeonato do Mundo, para sempre ligado a Colin McRae, trouxe consigo uma forte carga simbólica ao participar com um Toyota Celica Turbo 4WD ex-oficial, que chegou às suas mãos depois de ter pisado os palcos do WRC com Carlos Sainz e Didier Auriol ao volante. A sua presença ficou também marcada pela simpatia natural e pela disponibilidade para partilhar algumas das melhores histórias vividas ao lado do piloto escocês, para muitos um dos maiores ídolos de sempre da história dos ralis.

A presença de ambos sublinhou a crescente capacidade do RallySpirit para reunir nomes maiores da história dos ralis e acrescentou uma dimensão internacional ainda mais expressiva a esta 11.ª edição.

Para Stig Blomqvist, “o regresso a Portugal e ao RallySpirit fez-me reviver outros tempos e recuperar muitas memórias. Sendo já a segunda vez que participo neste evento foi fácil perceber como ele cresceu, com tantos carros diferentes e como continua a entusiasmar tantos adeptos dos ralis. Só posso dizer que foi um enorme prazer fazer a prova ao volante do Ford RS 200, de Grupo S, um carro único, que dá muito prazer de condução, mas que também é muito exigente... para a minha idade!”, revelou à chegada a Barcelos, o piloto de 79 anos.

Já para Nicky Grist, participar no evento “foi uma excelente experiência!”. Como fez questão de sublinhar o piloto-navegador, “os troços de montanha são espetaculares, mas sobretudo é a vivência que torna este evento especial e que me impressionou. Todo o ambiente e a paixão dos ralis percebem-se na maneira como cada espectador vive o rali e isso faz com que estejamos sempre numa atmosfera de ‘festa dos ralis’, algo que se nota até em comparação com outros Rally Legends.”

A relação de proximidade que ambos estabeleceram com o público ficou particularmente evidente na noite de sexta-feira, primeiro na sessão de autógrafos e depois na Rally Tertúlia Fuchs, momento que reuniu ainda Rui Madeira, Pedro Leal e John Miller — atual proprietário e um dos elementos técnicos que ajudou a construir o Ford RS200 S.

A dimensão internacional voltou, de resto, a ser uma das marcas fortes desta edição. Com mais de 100 equipas, cerca de metade estrangeiras, o RallySpirit confirmou o crescimento da sua projeção além-fronteiras e a sua crescente notoriedade no contexto europeu dos Rally Legends e do Slowly Sideways Europe, no qual tem vindo a consolidar o seu espaço.

Máquinas emblemáticas para todos os gostos

Também o alinhamento automóvel voltou a colocar o RallySpirit num plano de exceção. Entre os muitos modelos emblemáticos presentes, destacou-se o raríssimo Ford RS200 S, o único protótipo de Grupo S desenvolvido pela Ford, um projeto que acabaria por ficar suspenso pela mudança regulamentar ocorrida no final de 1986, tornando este carro numa peça tão rara quanto mítica na história dos ralis.

A seu lado estiveram alguns dos mais impressionantes “Super” Grupo B, como o Audi Sport Quattro em várias versões — só na especificação S1 E2, a mais extrema, marcaram presença três exemplares —, o MG Metro 6R4, o Renault 5 Turbo e Maxi Turbo ou o Toyota Celica Turbo. A edição de 2026 destacou-se igualmente pela presença de referências incontornáveis do Grupo A, como o Toyota Celica Turbo 4WD, o Lancia Delta Integrale, o BMW M3, o Volkswagen Golf GTI 16V (na rara versão Safari) e o sempre icónico Subaru Impreza.

A forte presença de várias unidades Subaru ajudou, aliás, a dar sentido especial à homenagem prestada à marca nipónica nesta edição, reconhecendo o contributo decisivo que teve para a história dos ralis e para o imaginário de várias gerações de adeptos. Essa presença foi sentida de forma particularmente expressiva ao longo do evento e ajudou a reforçar a dimensão simbólica desta 11.ª edição.

O percurso desta edição voltou também a ser um dos elementos marcantes da prova. A partida simbólica no Porto, rodeada por muito público, ofereceu desde logo uma imagem forte do entusiasmo em torno do evento.

Depois, o RallySpirit levou a sua caravana a diferentes pontos do território, passando por Santo Tirso, Vila Verde, Esposende e por classificativas com enquadramentos naturais de grande beleza, como as de Terras de Bouro, que deram ao rali uma moldura particularmente expressiva. Mas foi Barcelos que voltou a afirmar-se como o verdadeiro coração do evento, acolhendo-o com enorme entusiasmo e tornando-se, uma vez mais, no centro emocional e operacional do RallySpirit.

Pazó, Salgado e Peres asseguraram triunfos

No plano desportivo, a prova voltou a conciliar espetáculo e competição, mantendo a sua identidade muito própria com repartição da classificação por diferentes categorias.

Nos Históricos, depois de vencer em 2018, 2021 e 2024, Pablo Pazó e Ezequiel Salgueiro voltaram a escrever história, deixando registada a quarta vitória no RallySpirit, ao volante do seu habitual Talbot Sunbeam Lotus, desta vez sem adversidades de maior. O triunfo foi construído de forma expressiva, com Eugenio Gonzalez e Samuel Rodriguez, em Ford Escort MK II, a assegurarem o segundo lugar, mas já a 2m34,9s, enquanto Pedro Oliveira e José Fernandes levaram pela primeira vez ao pódio o BMW 635 CSI.

Já na categoria Spirit, Rui Madeira e Paula Madeira foram os principais protagonistas até meio da segunda etapa. Mas dois furos consecutivos no Mitsubishi Lancer Evo III mudaram o rumo da luta pela vitória, que voltou a escapar ao ex-Campeão do Mundo de Grupo N e ficou então à mercê de Rui Salgado e Luís Godinho. A dupla do Peugeot 306 GTI soube capitalizar experiência e rapidez para selar a terceira vitória no evento, mantendo-se como a única que conseguiu vencer, até hoje, em duas categorias diferentes. No segundo lugar terminaram Alberto Bermudez e Jose Angel Varela, em Ford Escort MK I, enquanto Rui Madeira, apesar de vencer todas as especiais do último dia, já não conseguiu ir além do derradeiro lugar do pódio.

Finalmente, na categoria Extra, Fernando Peres e José Pedro Silva venceram depois de superarem um furo no primeiro dia, recuperando a liderança a meio da segunda etapa para não mais a largarem até final. As duplas Daniel Silva/Filipe Martins e Vítor Pascoal/Martim Azevedo ainda passaram pelo comando, mas, enquanto o piloto do Porsche 991.2 GT3 abandonou com problemas de caixa, o do Suzuki Swift Maxi, exemplar único no mundo, terminou na segunda posição apesar de uma penalização motivada por uma adversidade elétrica.

A edição de 2026 ficou também inevitavelmente marcada por um momento de profunda tristeza com o falecimento de Jorge Paulo, um dos mais respeitados comissários técnicos do desporto automóvel português e figura muito estimada por toda a comunidade. A sua memória esteve presente no derradeiro dia de prova, assinalado com uma tarja preta em todos os carros, num gesto de homenagem simples, mas carregado de significado, respeito e reconhecimento.

Segundo Pedro Ortigão, um dos responsáveis da XRacing, “efetivamente, a 11.ª edição do RallySpirit só não foi um êxito maior porque ficará para sempre, e infelizmente, associada ao desaparecimento do ‘nosso’ Jorge Paulo, que muito lamentamos. Contudo, na estrada e no ambiente que proporcionámos às equipas, penso que a maior parte delas será unânime em considerar que foi um evento bem-sucedido. Tivemos mais participações estrangeiras, o que demonstra bem a vitalidade do RallySpirit, e voltar a contar com Stig Blomqvist também confirma o estatuto de credibilidade que o evento tem vindo a consolidar.”

No final de mais uma edição memorável, o RallySpirit volta a afirmar-se como muito mais do que um desfile de máquinas lendárias ou um encontro de nomes ilustres. O que o torna verdadeiramente especial é a forma como transforma a paixão pelos ralis numa experiência partilhada, autêntica e intemporal, onde o passado continua a emocionar o presente e onde cada edição reforça a promessa de futuro.

Para 2027, a organização pretende elevar ainda mais a fasquia, apostando numa presença reforçada de World Rally Cars, num desejo antigo dos aficionados da modalidade. Com Barcelos novamente como centro nevrálgico e a Toyota como marca em destaque, o RallySpirit voltará à estrada com a ambição de continuar a crescer e de oferecer ainda mais emoção, mais memória e mais paixão pelos ralis.

Classificação Final

Históricos

1.º Pablo Pazo / Ezequiel Salgueiro (Talbot Sunbeam Lotus), 1h16m00,0s

2.º Eugenio Gonzalez / Samuel Rodriguez (Ford Escort MK II), a 2m34,9s

3.º Pedro Oliveira / José Fernandes (BMW 635 CSI), a 7m25,0s ...

Spirit

1.º Rui Salgado / Luís Godinho (Peugeot 306 GTI), 1h21m16,0s

2.º Alberto Bermudez / Jose Angel Varela (Ford Escort MK I), a 6m20,3s

3.º Rui Madeira / Paula Madeira (Mitsubishi Lancer Evo III), a 7m21,1s

Extra

1.º Fernando Peres / José Pedro Silva (Mitsubishi Lancer Evo IX), 1h18m40,1s

2.º Daniel Silva / Filipe Martins (Suzuki Swift Maxi), a 5m24,8s